O Método Psicanalítico
- Ana Luiza Regis
- 30 de mar. de 2022
- 4 min de leitura
Atualizado: 31 de mar. de 2022
O método psicanalítico consiste em: observação, investigação e interpretação. Sobre o primeiro, desde as histéricas de Freud, o olhar clínico, detalhista, nosográfico, aprendido com Charcot, fora essencial no terreno da psicopatologia (Freud, 1893/1977). Estas características do Método estão intrinsecamente relacionadas, na medida em que esta observação minuciosa possui como objetivo a investigação do fenômeno, a busca pelo sentido oculto, velado, inconsciente, que revela a mensagem do sintoma ou a estrutura psíquica do sujeito, fundando a interpretação como característica essencial à Psicanálise.
A partir deste olhar investigativo, próprio do método psicanalítico que, o analista em atenção flutuante, buscará um sentido latente dentro do manifesto da obra, ou seja, conteúdos reprimidos que ressoam de maneira inconsciente tanto no autor da obra como no destinatário, pressupondo que, este material é semelhante, de maneira emocional, em ambos. Desta forma, é concebida uma comunicação cifrada inconsciente a inconsciente, tornando possível uma reconstrução do processo criativo a partir da emoção sentida pelo espectador. É neste sentido que, mesmo sem as associações do autor, pode-se chegar a uma interpretação do conteúdo inconsciente por meio do analista que fará as associações suscitadas pelo material, pelas pistas inconscientes e da forma como estas o atingem emocionalmente, confirmando o sentido desta interpretação em outros indícios da obra (Mezan, 1985).
Observamos desta forma, algumas semelhanças do processo de interpretação comuns à clinica, como a atenção flutuante, que se dirige principalmente à escuta do discurso do paciente na clínica. Mas, na análise da cultura, dependendo do objeto de estudo, como no caso de uma estátua ou uma pintura, por exemplo, a atenção flutuante do analista estará voltada para o olhar, que será o meio de contato com a obra.
É evidente a importância da emoção que a obra de arte pode despertar ao espectador, ao analista, que pode sentir pelo conteúdo da obra de maneira contratransferencial, as sensações oriundas do autor, e de seu inconsciente, que de certa forma o marca na obra. Se não há um paciente portando um discurso para ser analisado, por outro lado há a própria obra de arte como, por exemplo, um texto literário, que falará por si mesmo, proporcionando ao analista, emoções que o discurso de um paciente em associação livre também o faria. (Mezan, 1988).
A associação livre do analista em sintonia com a contratransferência suscitada pela emoção da obra de arte, não difere daquela em situação clínica durante a sessão, pois imerso no discurso do paciente, o analista em atenção flutuante também "associa" os conteúdos do discurso do paciente e formula ligações que contenham algum sentido, junto à emoção contida nas representações. Portanto, a obra de arte não associa, apenas oferece o material para ser associado pelo espectador, enquanto a forma que o paciente oferece o material é a própria associação livre.
Estas aproximações aparentemente técnicas da psicanálise clínica e aplicada são fatores de execução do método psicanalítico para a análise. Demonstram que a Psicanálise, seja ela clínica ou aplicada, obedece a critérios metodológicos comuns à sua ciência. A análise psicanalítica não é aquela que utiliza das técnicas, teoria ou conceitos da Psicanálise e sim a que utiliza o método psicanalítico como ferramenta de análise, sem perder o caráter heurístico da interpretação.
Outro fator importante da psicanálise aplicada é a verificação da hipótese formulada. Esta deve ser testada em outro ponto do material analisado a fim de confirmar o efeito emocional no analista, ou se o fenômeno foi uma projeção do próprio analista sobre a obra. A este respeito, Mezan afirma que:
[...] para evitar que a análise seja simplesmente projeção das fantasias do analista sobre o assunto analisado, é preciso utilizar um método comparativo. É por meio dele que se dão, por um lado, a percepção dos elementos dissonantes, e, por outro, a formulação de paralelos com outros pontos, a fim de verificar se a nossa hipótese se justifica ou não. (Mezan, 2002, p. 375)
A partir da formulação e verificação das hipóteses, abre-se caminho para o estudo metapsicológico dos dados obtidos. Tanto no sentido de um exercício de revisão teórica, ou seja, elucidar o fenômeno em questão segundo um ponto de vista teórico, comparando-o com a nova hipótese. É desta forma que surge a possibilidade de reformulação da teoria, "alteração" de um conceito, no sentido de atualizá-lo ou mesmo invenção de um conceito desde que "essa alteração se coaduna com a natureza da psicanálise". (Mezan, 2002, p. 390).
Diferente da ciência positivista, o objeto de estudo da Psicanálise não é algo mensurável por meio de estatísticas ou escalas quantificáveis. O método psicanalítico de análise e investigação, desde que foi criado, preserva o caráter heurístico em sua construção de conhecimento, ou seja, privilegia o não saber, a descoberta, o velado, onde no resultado surgirá algo de novo. Como já dizia Fábio Herrmann (2004), utilizar um método quantitativo para investigar a psique, o subjetivo, seria como tentar entender o funcionamento de um relógio usando luvas de boxe, a ferramenta não se adéqua ao objeto.
As análises realizadas por meio do método psicanalítico, as ditas aplicadas ou da cultura, levam em conta a implicação da subjetividade do analista que fará parte da análise e do processo de descoberta de conteúdos inconscientes, pistas inconscientes, que estão contidos na obra e que ressoam no inconsciente do analista. Este, a partir das emoções suscitadas, interpretará, isto é, traduzirá o latente em linguagem metafórica. E, a partir deste material, realizar a revisão teórica já citada anteriormente. Este processo permite que, assim como na clínica, o analista faça surgir uma das verdades contidas no paciente ou na cultura, mas nunca esgotando-as, como se fosse uma verdade única e irrefutável.

(Texto retirado do artigo: KOBORI, Eduardo Toshio. Algumas considerações sobre o termo Psicanálise Aplicada e o Método Psicanalítico na análise da Cultura. Rev. Psicol. UNESP [online]. 2013, vol.12, n.2 [citado 2022-03-29], pp. 73-81 . Disponível em: <http://pepsic.bvsalud.org/scielo.php?script=sci_arttext&pid=S1984-90442013000200006&lng=pt&nrm=iso>. ISSN 1984-9044.)

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